Há um ano e meio faço parte de um grupo de discussão na internet chamado ACBR, (http://acbr.luky.com.br) sobre Agatha Christie, a inigualável Dama do Crime. Acho que todo mundo já ouviu falar nela ao menos uma vez. Aquela inglesa, escritora de romances policiais, a autora mais traduzida do mundo depois da Bíblia. Pois é. Aprendi a amar Agatha Christie ainda pequeno, influenciado pela minha madrinha, a Ôsa – ou Tetê, também conhecida pela alcunha de Eleuza – a qual, desde que me conheço por gente, possui a obra completa, e me emprestava de quando em quando. Eu e o meu primo Guto disputávamos para ver quem lia mais títulos em menos tempo, e resultou que hoje sou um grande... rato de livros.
Um rato de livros não é simplesmente alguém que gosta de ler. Rato de livros, na verdade, é aquele que sempre tem uma boa desculpa para justificar o porque de estar lendo sempre. Assim, pleonástico mesmo. Não chega a andar com o livro embaixo do braço o dia todo, mas quase. Ler se traduz em algo mais que simples prazer. Chega a ser um ritual. Sagrado. Inexpugnável.
O rato de livros lê em qualquer lugar, mas tem um local especial onde mais gosta de ler. Um sofá, uma poltrona, a cama, um cantinho, que é o seu refúgio para se dedicar ao culto à leitura. As tocas do rato de livros são os sebos e as bibliotecas. Uma pergunta: você sabe com que parte do corpo o rato de livros lê? A resposta óbvia seria com os olhos, certo? Meio certo. O rato de livros lê com os dedos, com o tato, com o olfato, com o suor, com o paladar e com a alma. Quem o é, entende.
O fato é que, dia desses, uma amiga da ACBR levantou a seguinte questão: o que nós acharíamos se fossem postados no grupo e-books da Agatha Christie. Ora, e-books são livros “eletrônicos”, livros digitados (ou digitalizados) para se ler na tela do computador ou em folhas soltas de papel, depois de impressos. Minha resposta? Não, obrigado!
Já me basta o bombardeio diário de e-mails, notícias, mensagens instantâneas, spams e eteceteras como conseqüência da necessidade de se utilizar a internet como meio de comunicação. Já me basta ter essa ferramenta como indispensável e, por isso mesmo, viciante, inebriante, cansativa até. Já me bastam os dedos doloridos, a vista cansada, a dependência virtual. Não penso em substituir meus livros por telas com letras. Não, obrigado!
Pode até ser mais barato e/ou acessível e/ou prático e/ou moderno e/ou qualquer outro adjetivo que se possa dar. Se por um lado existem as vantagens, por outro existem as perdas, como a questão do direito autoral e da propriedade intelectual. Mas nem é isso o que mais me incomoda.
O que me incomoda mesmo é a idéia de que tudo – inclusive os livros – possa ser substituído pelo virtual. O que me incomoda é a confusão que se faz entre necessidade e acomodação. O que me incomoda é a escolha de sentar em frente a um computador à relacionar-se com os demais. O que me incomoda é um dia não poder sentir mais nas mãos o peso das páginas, não poder sentir aquele cheiro de livro novo, a espessura das capas, as gravuras, a diagramação, enfim, o livro em si.
Talvez, mesmo em meio às modernidades do século 21, eu seja algo antiquado. Acho que sou mesmo. Mas, enquanto não for obrigado a trocar minha estante por um disco rígido, continuarei pensando assim. Leio porque é livro. Porque gosto. Porque um livro me basta.
Abraços Serranos!
Leo
Lopes – Ago/2004 – http://oeloperdido.zip.net